Urgente é gente: um livro-convite a um outro tempo
Neste texto, eu celebro uma conquista muito importante. Estes ciclos pedem rituais. Por isso, pensei neste texto ritualizante. Eu queria compartilhar com vocês o lançamento de um livro. Um livro do qual sou autora. Reprodução de minha coluna em UOL Viva Bem sobre “Urgente é gente”.
Escrever um livro foi um processo artesanal. Juntar os fios das referências ao tecido dos casos e histórias que vão dando vida a elas. Integrar a pesquisa, a teoria, os outros livros lidos à experiência, às vivências, a tudo o que está impresso em mim como impressão do vivido. Vívido.
Me colocar no livro. Me reconhecer nas linhas. E nas entrelinhas. Sentir que estou viva, com aquele frio na barriga de colocar um projeto como este no mundo. Fico nervosa só de pensar.
Um livro é um convite a um outro tempo. E um livro sobre o tempo? Meu livro é sobre o tempo. E também sobre estes tempos. Nossos tempos. Que tempos são estes? Talvez a urgência seja a grande questão destes tempos. E a forma como fomos naturalizando e normalizando a aceleração do tempo e todos os seus efeitos.
Celebro, porque acredito no ritual como momento de habitar o tempo, como nos lembra o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, mas também porque o livro é este objeto fruto que tem uma relação tão linda com o tempo: ele é situado no tempo, fruto de dedicação de tempo, atenção, carinho e energia, mas também convida alguém a dedicar tempo, atenção e energia para ser lido e compreendido.
Celebro, então, o espiralar de um processo que tem neste livro um fruto, mas também celebro esta qualidade de tempo que um livro carrega em sua alma. Um tempo de contemplação. Um tempo de reflexão. Um tempo do sair do automático. De parar, pensar, sentir, sonhar e imaginar. Um tempo de desacelerar. E que me emociona ter o privilégio de colocar no mundo.
‘Urgente é gente’ foi lançado ontem na Bienal do Livro de SP
Imagem: Arquivo pessoal
Celebro também este lugar da autoria, tão remexido neste mundo acelerado. Um texto autoral convida a gente a olhar para o universo da inteligência artesanal e para tudo o que ela convoca a viver. E tudo que este mundo apressado vai tirando das nossas mãos.
“Urgente é gente: estamos vivendo se estamos sempre correndo”. Este é o nome do meu livro. E ele é — como eu gosto de dizer por aí — um desmanual.
Quando eu falo sobre vida acelerada, é muito comum que as pessoas me peçam dicas para desacelerar.
Este pedido às vezes é uma forma de reagir a uma constatação angustiante (estamos em um mundo acelerado e se tudo está, de alguma maneira, indexado pela cultura da velocidade, como eu falo para sair dessa armadilha?), mas às vezes é um sintoma do próprio mundo acelerado: o desejo por uma receita milagrosa, uma “fórmula mágica do tempo” que permita que a pessoa desacelere.
E eu sei o quanto as pessoas se frustram quando eu afirmo que não é possível desacelerar sozinho.
O livro é uma tentativa de lançar luz sobre um tema que é urgente e, ao mesmo tempo, denunciar que tudo é urgente. E, quando tudo é urgente, nada é urgente. É um manifesto que afirma que urgente, na verdade, é gente.
E a forma atual e avançada do capitalismo tem como uma de suas engrenagens uma forma muito particular de nos desumanizar: a produção do cansaço e da exaustão.
Corpos cansados não fazem política, não se rebelam, não constroem comunidades, não fazem festa, arte, amor e “não têm tempo” para nada que não seja entendido como útil ou produtivo.
Na obra, eu busco denunciar o escândalo da aceleração, mas também anunciar saídas possíveis para este mundo; revelar que estamos doentes de velocidade e que a pressa é uma questão sistêmica e coletiva, tentando alimentar uma qualidade de esperançar necessária para enfrentar essa realidade.
Como eu disse, ele é um manual às avessas, porque não é uma fórmula pronta. Não traz uma dieta milagrosa do tempo. Não apresenta uma lista de 7 passos para desacelerar.
Nele, eu busco politizar a questão da aceleração social situando o movimento pela desaceleração da vida em um contexto de desigualdade.
É a tentativa de traduzir um esforço de pesquisa em torno da descoberta de que também nosso tempo vem sendo colonizado por este projeto de desenvolvimento; e que vivemos também uma monocultura de bem-estar, cuidado e saúde mental.
Como estas coisas se articulam? Ora: se ter tempo é uma questão de prioridade na sua agenda, basta você se organizar e dedicar algumas horas do seu dia para se cuidar. Uma concepção de bem-estar e saúde integral contaminada pela meritocracia.
Em contextos desiguais, as experiências temporais são também atravessadas por marcadores sociais de desigualdades. Ter tempo para algo não é apenas uma questão de escolha; assim como também não está apenas no âmbito das escolhas ter uma vida saudável e hábitos de cuidado e bem-estar.
Então, é uma tentativa de inscrever o bem-estar no âmbito do bem viver; e de politizar o cansaço e refundar a esperança, diante deste contexto em que a exaustão se tornou uma das mais sofisticadas formas de dominação.
Ao dar-se conta de que essa correria não é sua, nem minha, mas de todo mundo, talvez você fique aliviado (a). “Ufa. Não sou eu que estou ansioso (a). Isso é geral”.
Sim, existe um componente social, cultural, econômico e político desta aceleração.
Mas talvez o livro gere um duplo afeto: junto com este alívio, pode emergir também certa angústia que se traduziria talvez em “beleza, mas então, se é coletivo, sistêmico e generalizado, estamos atrapados e sem saída? Por onde é possível começar a transformar a realidade?”.
Pergunta legítima, fina, elegante e sincera, da qual tento dar conta, ao mostrar tudo o que fui descobrindo sobre este tema com minha pesquisa e minha prática, investigando este assunto na Universidade; vivendo esta agenda como pessoa pernambucana que escolheu viver e existir na cidade de São Paulo (que se orgulha de não parar nunca); e como ativista, que vem buscando promover a democratização do acesso ao cuidado ao bem-estar e à saúde mental à frente do Instituto Desacelera.
“Urgente é gente” foi lançado ontem na Bienal do Livro de SP e haverá um lançamento em São Paulo no dia 26 de setembro. Se quiser saber mais, este é o canal da Diálogos Editora, que publicou a obra.